Dogo Dash, muito mais que um jogo de cartas

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Quando era criança, eu gostava muito de jogar. Videogame, cartas, jogos de tabuleiro. Eu até me meti a jogar Magic, mas não tive como continuar por questões financeiras. Com o tempo, o mundo lúdico dos jogos foi se distanciando de mim. Ou eu me distanciando dele.

A paixão sempre esteve ali. A criatividade, inquietude e curiosidade também. Faltava tempo, faltava dinheiro e faltava estímulo. Minhas amigas não jogavam, meus amigos que jogavam, achavam que isso era coisa de homem.

Quando ganhei um pouco de estabilidade financeira, voltei a querer jogar. Me meti nisso e fui conhecendo mais mulheres como eu. Vi que a gente tinha relevância, mas não tinha muita representatividade. Comecei a escrever pro blog Jogazera, fui a primeira mulher no grupo. Eles estavam ativamente procurando mulheres, pois eles estavam incomodados.

Ainda que isso seja raro, existem pessoas preocupadas. Mas na indústria, isso ainda é uma luta pouco valorizada. Fiz um artigo sobre isso quando visitei um estúdio em Hamburgo e vi que era uma menina fazendo a arte versus sete caras fazendo todo o resto.

BERLIM

Quando me mudei para Berlim, em agosto de 2018, eu estava super deprimida. Eu precisava encontrar algo que me motivasse a continuar. Eu era recém-imigrante, com dificuldades para aprender o idioma, desempregada, negra numa terra em que a maioria é branca. Quando fomos a Berlin Mini Game Jam, eu só queria me distrair.


Depois de fazer o jogo, achando ele uma grande piada, eu fiquei pasma com o retorno das pessoas. Elas adoraram o jogo! E o jogo era só um bando de cartas desenhadas a mão e umas regras toscas com a mecânica de pedra papel tesoura.

A organizadora do evento me contactou e disse: “você que fazer o jogo de verdade? Eu posso te ajudar”.

Meu pensamento foi “mas pra quê?”, mas eu respondi “claro, eu adoraria”. Eu não sabia a razão, mas eu apenas me deixei levar pelo desafio. Começamos a ter reuniões semanais pra falar da mecânica, discutir as regras, testar e fazer contas pro balanceamento do jogo. Com as regras e ideias mais estruturadas, resolvemos procurar uma artista para fazer as ilustrações. 

Desde o começo minha ideia era ter personagens diversos e inspiração queer. Eu tenho familiares e grandes amigos LGBTQ+, é a minha vida, minha realidade e não teria como ser diferente no meu primeiro jogo. A Johanna, a organizadora da Berlin Mini Game Jam e então apoiadora do projeto, estava super de acordo com a minha filosofia. Procurei pessoas queer no reddit e encontrei a Margherita. Também imigrante e com uma visão de mundo parecida com a minha. O time estava pronto!

DOGO DASH

Depois de meses usando o nome “Dogo Style” – não foi o primeiro nome do jogo, mas foi o que ficou por mais tempo antes do nome atual – resolvemos escolher um nome que fosse fofo e que não desse margem para trocadilhos. Meu marido falou de “Dogo Dash” depois de eu falar que queria que fosse “Dogo” mais uma palavra com “D”, pra ser DD como Dungeons and Dragons. 

Imprimimos protótipos das cartas e começamos a levar o jogo em feiras e eventos locais. Também comecei a presença online do Dogo Dash, já pensando que seria relevante pro futuro, caso o jogo fosse lançado.

Fiz o pitch do projeto para algumas lojas e editoras, mas não houve muito interesse: eu também não tinha experiência com isso, então acabamos decidindo por fazer um financiamento coletivo.

FINANCIAMENTO COLETIVO

Com a ideia de se auto-publicar por meio de financiamento coletivo, a pressão de testar e mostrar o jogo por aí cresceu. Me inscrevi num programa de mentoria, o Tabletop Mentorship Program. Nele, conheci meu mentor, o Lucas Pereira, da Tamanduá Jogos

Tive 3 meses de mentoria focados em finalizar o jogo e deixar pronto pro mercado. Participei do ProtoBR e testei meu jogo muitas vezes online pelo Tabletopia. Com a GenCon ganhei mais visibilidade no Brasil e vi que existe um movimento forte em busca de espaço para autores negros, mulheres e LGBTQ+. Me senti acolhida, vi que mais pessoas levam representatividade e diversidade a sério. 

Claro que para vender o jogo, é preciso falar das mecânicas, dos motivos que fazem o jogo divertido, interessante e relevante. Tento focar nisso ao máximo. Mas também quero inspirar, quero ver mais pessoas como eu fazendo sucesso.

FUTURO

Enquanto eu estava me preparando para a SPIEL.digital (eu era a única mulher brasileira com jogo na área de protótipos), fiquei sabendo que meu jogo foi financiado em apenas 11 horas. Isso me pegou de surpresa e, desde então, tenho tentado acertar os passos, encontrar mais interessados e viabilizar o lançamento do jogo no Brasil. Estou feliz de saber que isso é possível, pois muitas pessoas tem interesse no jogo. 

Quero muito fazer mais jogos e espero ter mais mulheres crescendo comigo!

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